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Coletânea de Poemas e Ensaios VII

Eis-me

 

Desço as estepes.

Quanto mais desço, mais subo

Num descer vagaroso, num subir inacreditável.

Vejo-me baixo, mas todos acham que é alto demais

Não me vejo subindo, somente caindo

Num cair interminável

Quisera eu, poder ter asas

Soltamente em direção ao vazio

Plenamente impregnado de sol, ar e luz

Coisas que não ocupam espaço, somente conduzem

Irremediavelmente ensolarado, arejado e iluminado

Um abismo

Precipito-me, e vôo

Cansa-me voar o tempo todo, então paro

Quero ouvir o eco do nada

Reverberar o limpo

Renascer, adiantar-me no tempo

Morrer para poder nascer

Viver somente não basta!

Há que matar-se sempre

Fênix ressuscita-me!

Viver ressuscitado é um viver endeusado

Ser único, isolado

Então a cada transformar encanta-me

Faço magias, cumpro rituais, enriqueço-me

Sou de transparência enegrecida

Recuso o espelho, tudo que reflete é distorcido

Enegrecida transparente, sou um rumo não evidente!

Experimente-me. Siga-me sem nenhum dos sentidos

Sem nada, porque nada é tudo

O brilho do sol, o ar e a luz.

Sente-se, é verdadeiro sentimento, é tudo

Não concreto, então é nada!

Reconheço-me

 

Pés descalços

 

Queria um dia poder sentar parar, observar

As pessoas andando nas guias

A chuva caindo fria, sem nunca me enganar

Mas este lugar sereno, venho em busca do que não tenho

Em nenhum lugar há de estar

Por pontes negras e vazias, ando sozinha, noites e dias

Num encontro a esperar

Como pode uma pessoa parar para gostar de

Ver gente ao meio fio

Frio de chuva a respingar.

A tarde inteira passa

Junto a ela devassa uma vida no altar

Fujo tanto quanto posso, corro por vezes sem sentido

Mas sempre acho comigo um amigo a me chamar

E deste sonho desperto, talvez manso e incerto

E esse amigo decerto tem sempre algo a me contar

De muitas formas aparece, quantas vezes se transforma em prece

Querendo me salvar

Alado, transfigurado, ou maltrapilho

Sempre é vindo do altar

Ajoelhada, de olho no céu, passa por mim

Anda leve sem barulho, eleva, e leva

Sinto-me fora do chão, solta no ar.

Quando de pé sozinha a murmurar, fala comigo sem

Sentido, não quer perguntar

Quando ele sofria eu olhava

Quando calava eu falava

E não o acompanhava

Hoje

Quando sofro, sofre

Quando calo, cala

Quando ando me acompanha

Que coisa estranha

Meu amigo senta comigo

Ouvindo o barulho do mar

É minha consciência em clausura

Feita de filhos seus

Olhe para mim, fique de frente

Porque sei que és filho de Deus.

 

Alma de artista

 

Existe algo comigo

Totalmente imponderável, obscuro, mas energético!

Minha alma não tolera qualquer tipo de interferência

Viaja como um raio põe sua marca,

Naqueles que juntamente nela viajam

Claramente percebe-se que interagiu

Instantaneamente tudo muda, vai ao âmago, volta e dilacera

Sem ser grotesca ou estranha se instala, e ali permanece

Então minha alma é toda retalhada

Retalhos meus com pedaços seus

Miscigenação completa, impregnação imediata

Infindáveis cheiros no ar

Tome cuidado não a deixe entrar

Conhecendo os meandros dos caminhos aporta-se

E toma-lhe

Alma desalmada essa que Deus me deu!

Apodera-se e vai com a sua melhor parte

Junto com sua parte está minha parte.

De parte em parte ela se reparte

Retira a arte

Olha, desdenha e ri

Desmedida, inconsciente

Impetuosa, sozinha e penada

É alma de artista, acostumada a máscaras

É poema, música, teatro, pintura

Vai colorindo por onde passa

Sons para os surdos,olhos para os cegos

Tato para os insensíveis

Corra, olhe-se no espelho

Se houver algo parecido com

Máscara do choro e do riso

Palpitar e,tremer de emoção

Além de a sua parte virar arte!

Fez da sua vida um coração.

 

Óculos partidos ao meio

 

Hoje eu estou aqui diante de um batente de janela feito de jatobá

Agora emoldura o vento, as colinas e o tempo e o passaredo que se vai

Que bela árvore esta deveria ser.

Figurando na paisagem portentosa e magnânima, verde maravilhosa

Seu tronco espesso e rugoso representou um velho sábio.

Jogado, sem ser sentido ou ouvido.Derrubado no chão

Tinha sobras, ninho de passarinhos, uns óculos quebrados ao meio.

Possivelmente alguém ao sentar-se em sua base teve um devaneio

Daquela arvore frondosa, esplendorosa

Só sobrou um tronco avermelhado

Decerto o assassino deixou ali aquele recado.

Arrependeu-se dos seu pecado.

Deixou uma parte de sua visão

Para nunca mais olhar o derrubar da nobreza da Terra

Espalhada no meio dessa serra.

Jacarandá em extinção

Peroba rosa jamais.

E depois o que mais?

Ninguém quer conviver com a passarada

E insanos alheios derrubam a mata

E ela calada se mata

De um matar assassino não suicida

Esta é a minha querida história de uma mata florida

Que foi, e não é mais Atlântica

Para aqueles que se lembram romântica

Sombras, cheiros, água, vida e céu!

Hoje grande estiagem, agora só miragem, folhas ao léu!

Mas não é de passagem.

Raivosa a natureza cobra, a morte dos seus filhos em vão

Agora não existe mais nada, somente seca, estiagem

Furiosa, como um furacão.

Certa, teimosa e arredia, mas infelizmente foi-se o dia em

Que tudo voltaria.

Hoje existe uma semente dentro de minha mente.

Quero plantá-la esperançosamente.

Espalhando meu pensamento aos ventos, sem receio eu semeio

Uns óculos que ficaram como prova de um sábio partidos ao meio.

 

Rosana Bonsi Theodoro

Dentista e bacharel em Direito, voluntária internacional.

Apaixonada por pessoas que gostam de pessoas.