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Coletânea de Poemas e Ensaios II

Incapacidade

 

A paz que procuramos

Está no silêncio que não fazemos

Há horas em que as palavras sobram,

Ficam pesadas demais,

Há horas em que as palavras faltam,

E tal é o suplício de não poder exprimir-me,

Que fujo a qualquer entendimento.

Então me esvazio, me espremo

Como um fruto caudaloso oferecendo a sua seiva.

Saciando a sede de quem precisa.

Recuso a saciar-me.

Essa sede me seca por dentro

Enquanto houver uma única gota

A mim não servirá de alento.

Devo estar totalmente vazia.

Não me oferçam nada, porque nesta hora

Somente os secos me interessam.

Sede estranha.

É querer conceber e não conseguir.

Então esta falta de capacidade me persegue.

Acho-me: porque dentro de mim só tem a mim.

Este vazio procura a verdade.

Na humildade de ser nada,

Porque ser nada humildemente

É muito melhor do que ser

Uma tola arrogante.

 

O avesso

 

Eu quero escrever pelo avesso,

O contrário me atrai,

sendo escuta que se cala ou a visão que se oculta,

Ou o escuro dantesco e brilhante,

Talvez na minha gênese houvesse uma falha,

Um desvio fundamental.

Não fui deliberadamente gerada,

Simplesmente aconteci,

Então esta consciência de liberdade me transforma

Num ser que tem como sinal

A solidão de não pertencer a... mas para a...

com uma missão determinada e só,

Numa reta,pápida e sem atalhos

Como se contassem comigo

Para participar de todas as batalhas,

Se um dia desertarei jamais saberei.

Porque fui atemporal, tinha pressa em nascer,

Não pedi permissão,

Tinha 2 kg , gestação de 8 meses e

Cabia na caixa de sapatos do meu pai.

Como sempre tive pressa, como um raio, ou um lampejo, Ainda que não fosse à hora de nascer.

Traí meus pais, mas fui perdoada ,

Porque fui criada com todo amor.

Resultou-me.!

 

Coração Valente

 

Eu poderia ser

Mas ser não importa

Porque eu penso.

Mas eu penso que

Poderia ser o que quiser

Porque falo como quiser

Mas eu penso o que quiser desigualmente.

Tudo poderia ser,

Mas meu falar é diferente

Meu grito é surdo

O sentimento bravio, escancarado

Eu não faço a menor falta!

Faço tudo na vida

Só não peço esmolas

De jeito nenhum!

Mas eu penso que para ser como eu

Pode ser qualquer um ,desde

Que pense demais

Apiedar-se de si jamais

Pensar absoluto

Afinadíssimo

O pensar exige sincronismo

Com aquilo que sente-se

Um sentimento áspero.

Teria que ser forte

Nunca implorar,

Desesperamente real e leal

Jamais lacrimejar piegas

Sem dó nem piedadade

Absolutamente dolorido

Agüenta-se ,enfrenta-se e determina-se

Tolera-se

 

Sentido anti-horário

 

As horas são contadas

Eu preciso ter pressa

O tempo de Deus é um

O meu é outro!

Há sempre uma discrepância

No meu tempo!

Os minutos não sentidos

E os segundos, são segundos e não primeiros

E o equinócio, é um beócio

Tempo para isso, tempo para aquilo

Tempo de chegar e de partir

Infinitamente escravizado

Sou um ser anti-horário

Deixa-me acontecer

Quando cansasse

Poderia ir embora

Ou ser

Imortal

Ainda bem que:

Deus determinou a criaçao

Muito severamente ,pois

Diante de Deus

Liberdade é:

O tempo suficiente

De viver para morrer!

Na atemporalidade

Deixa-se a realidade

Cumpre-se um ideal

Até o mais insano de todos

Portanto vou embora

Deixando a alma

e levando o corpo!

 

Angelus ora pro nobis

 

Minha garganta seca

Cuspo uma oração

Rosto ao vento

Barulho e silêncio

leve e pesado

templo submerso

amor e ódio

alegria com tristeza

árvores que já floresceram

o cheiro trazido pelo vento

conhecimento e magia

esboço de idéias

ora pro nobis

Refratar a luz

mistério das estrelas

Inexatidão da paixão

caça contra caçador

Oevalho transpirado

Explodem conflitos em diálogos mau formados

Eu sou veneno puro feito de cicuta .

 

No silêncio que ainda há por vir,

Grossas raízes fincadas

Na proximidade de fontes,

lagos e cachoeiras

braços e pernas e olhos,visão indomável.

Angelus ora pro nobis

como se não tivesse ilusões

Que medo alegre,

Que covardia triste!

 

Caro amigo leitor:

 

Motivada em lhe agradecer, já que entendo que existem compromissos fundamentais. Eu sou apenas uma arteríola (a menor de todas) que às vezes pulsa e você sente! Mas ao lado desta existem outras artérias calibrosas, sem as quais ninguém sobrevive. Seu compromisso comigo faz deixar-me pulsar somente! Se não houver nenhum coágulo que me obstrua, vou disseminando o sopro de meu ar para dentro de ti. «Enquanto eu lhe der sabor com aquilo que escrevo, deixa-me existir.»

Preocupa-me o seu «estar», o mesmo modo que se preocupa com o meu «estar».

Tempo é uma ação condicionada a nossa maneira em atender aos compromissos.

Eu quero ser um compromisso descompromissado, uma folha que se move ao léu, ao sabor do vento! Seja feliz e essa arteríola certamente irá sentir a sua alegria.

Existem feitos que exigem, sabor, prazer e determinação. Quero ser um de seus sabores. Prazer e determinação eu deixo para seu trabalho!

Sinta-se à vontade em visitar meu restaurante imaginário com infinitos sabores.

 

Rosana Bonsi Theodoro

Dentista e bacharel em Direito, voluntária internacional.

Apaixonada por pessoas que gostam de pessoas.