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A Todas as Mães

Saudades

 

Não quero falar aos meandros Não quero mostrar minha alma aos anjos

Nem me guardar em divinos cantos

Sofro de tantas dores

Ardentes , pulsáveis e febris

Jamais piegas , pueris

Noite insana que mata meus devaneios

Infindáveis são os meus anseios

Quero loucamente o que não posso

Sôfrego , vazio, constantes desejos meus

Quero ir ao encontro dos seus

O seu olhar me cala

Ouço a sua fala

Noite e dia numa gradual escala

Estremeço e congelo

Face lívida, triste

Como num dia de geada

Andando, vou rumo ao nada

Suspiro fundo olho o horizonte

Não é serrado, nem deserto

Somente um fundo árido e incerto

Tento encontrar ao longe algo que não se vê

E dói não poder dizer o que sinto

Porque estou dentro de um labirinto

Fuga enlouquecida e perdida

Não há caminhos

Nem entrada e nem saída

Espalmo o ar de mansinho

Cabeça entre os braços

Louca em desalinho

Preciso desfazer os laços

Não consigo, quero abraços

Me esvaio em suor torturada quase desmaiada

A sua falta é tão profunda

Que um rio de lágrimas me inunda

Então no silêncio de uma oração

Eu choro fininho em tom de canção

Olho para Deus e peço assim

Acompanhe minha mãe até o fim

Por que ela precisa sim

Mais de você do que de mim.

 

Homenagem prestada à minha mãe querida, Floripes Bonsi Primo Theodoro, que divide o céu com o nosso Pai Maior.

 

Rosa desfolhada

 

Ganhei um anjo cego

Ganhei um sentido novo de visão

Um ponto escuro

Estende-me as suas mãos e me procure

 

Que mãe é esta que Deus me deu!

Que agarra as minhas entranhas e depois

Devolve-me com um belo suspiro

Sua mente obscura que reconhece o inatingível

Ouve a minha voz e sorri-me

Quero chorar, mas penso na perfeição da criatura

É Deus em sua forma mais pura

 

Ganhei um anjo cego que anda com meus pés

Olha dentro dos meus olhos dilatados

Não existe um amor maior que o de mãe, mas eu

Privilegiada por alguém genial

Ganhei um amor maior que o maternal

 

Alzheimer que cega, enlouquece, maldito!

 

Eu te enlouqueço primeiro

Amigo de Lúcifer, o malígno

 

A nós duas não vence com a sua vergonha

Usa de entremeios e entreveros

Eu aprendi a ser seu aliado e não me aborreço

Paciência e amor nesta trajetória

É o único jeito de alcançar a vitória

 

Sentido com sentido

Sentimento infinito

Infindável sem sentido

Infinito, infindável, sentimento

Morder, roer, remir

Ajoelhar, rezar, agradecer

Personalidade ferrenha

Calamidade determinada

Adorável Rosa desfolhada

 

Seus alvos cabelos são a minha luz

Seu galho é forte

Baluarte de minha sorte

Nazareno contundente

Me mandou uma mãe diferente

 

Esta é uma poesia em homenagem a todos que têm alguma "diferença" e a cada dia precisam vencer com determinação e coragem os próprios limites.

Eu me vejo diante de um "Aquiles de saias" e sua guerra é Santa.

A minha sogra D.ª Rosa Pincerno Capotorto, que é cega e tem Mal de Alzheimer, todo o meu amor, admiração e respeito.

 

Rosana Bonsi Theodoro Capotorto

Dentista e bacharel em Direito, voluntária internacional.

Apaixonada por pessoas que gostam de pessoas.